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sexta-feira, 3 de setembro de 2010
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VAGAS LEMBRANÇAS DE UM QUASE ATLETA

Por: Paulo Marreco

Data: 27/11/09 10:10


Caríssimos, se tudo correr dentro do planejado, a segunda edição de meu primeiro livro, Vagas Lembranças de Um Quase Atleta, estará nas ruas em dezembro. Não quero me gabar, mas acho que será uma boa opção de presente de Natal. Acreditem em mim!!!

Portanto, peço licença aos meus queridos nove leitores para, durante as próximas semanas, divulgar alguns capítulos desta estupenda demonstração de total ausência de senso de ridículo e falta de discernimento, divididas em capítulos autobiográficos sobre futebol, jiu-jítsu, triatlo e, claro, surfe. Espero que gostem, espero que comprem. Se não gostarem, espero que comprem mesmo assim. Afinal, preciso pagar algumas contas atrasadas: água, luz, telefone, prestação do meu iate novo, sabem como é...

A seguir, o primeiro capítulo, sobre futebol, paixão nacional. Claro que, antes de almejar ser o Kelly Slater, todo surfista desejou se jogador de futebol...

Abraços, boa leitura!







SELEÇÃO


Como todo garoto brasileiro, eu também já sonhei em ser um grande jogador de futebol, em vestir a camisa amarelinha da seleção e brilhar nos gramados do mundo. Cheguei a disputar campeonatos de futsal (que na época atendia pelo nome de futebol de salão) pelo Clube Libanês, do qual era sócio. Eu era um dos três goleiros que brigavam pela vaga debaixo das traves. Humildemente, tenho que dizer que eu era o terceiro na preferência do técnico. Apesar da concorrência ser intensa, Sandro Pretti, que era o titular, quase sempre faltava aos jogos que aconteciam aos sábados de manhã ou à tarde. Quando alguém contava que ele não tinha comparecido ao jogo para ir surfar, eu ficava intrigado. Não podia compreender como alguém era capaz de abandonar uma coisa tão séria, uma partida importante do campeonato capixaba de futsal, categoria infantil, simplesmente porque naquele dia havia “altas ondas” no surfe! (pensava assim até que eu também me tornei um surfista: mas isso não vem ao caso no momento).

Pois bem. Quando Sandro faltava ao jogo para ir pegar onda, eu e o Alemão (que me perdoe o Alemão, mas eu não sei o seu nome; acho que ninguém nunca soube. Talvez os seus pais soubessem) disputávamos a posição, quase sempre com larga vantagem para ele. Mas eu também tive meus momentos.

Naquele ano, nós fomos vice-campeões, se não me engano. Este resultado, aliado ao fato de algumas pessoas do meu círculo irem fazer testes em times do Rio (eu jogava bola com o Sávio quase toda semana no campinho do Libanês; de fato, se a memória não me trai, devo ter-lhe ensinado um driblezinho ou dois), e ainda a percepção de que, nas peladas, jogando na linha, se não era o primeiro a ser escolhido, também não era dos últimos; tudo isso, enfim, mais uma certa habilidade, alguma velocidade e nenhum senso crítico fizeram-me acreditar que poderia tentar a carreira profissional. E como um tolo só precisa de algum incentivo para fazer tolices, achei no meu vizinho e amigo I Fe (ou Ivo, na versão brasileira, um chinês -preciso fazer uma correção, ou o Ivo me mata. Chinês, não: taiwanês. Taiwan, ou Formosa, como se sabe, separou-se da República Popular da China em 1949. Chamar um taiwanês de chinês constitui ofensa tão grave quanto chamar um tucano de petista, ou um vascaíno de flamenguista. Ou vice-versa - inteligentíssimo, porém igualmente iludido em relação aos seus dotes futebolísticos), o parceiro ideal para meus desvarios.

Torcedor fanático do Santos (de onde este chinês –perdão, Ivo. Taiwanês- maluco havia tirado essa idéia? Torcer pelo Santos?! Em plenos anos oitenta?!), Ivo era dono de um chute forte e sempre fazia alguns gols em nossas peladas, e como não precisava estudar nunca, pois sempre tirava dez em tudo, tinha todo o tempo livre do mundo para jogar pelada. Nós jogávamos bola sempre: no campo oficial do Marista, onde estudávamos; na quadra do Libanês, depois no campo de society; na velha e esburacada quadra de cimento do Sesiminas, descalços sob o sol escaldante de dez, onze da manhã; à tarde, até a chegada dos adultos que nos expulsavam; na chuva, escorregando, caindo e abrindo a cabeça; na praia...

Até que, convencidos de nosso potencial, resolvemos fazer um teste em um dos times de futebol da cidade, que, naqueles tempos, ainda desfrutavam de algum prestígio junto à população capixaba. Descobrimos o horário do treino e, chuteiras a tiracolo, dinheiro da passagem contadinho no bolso e sonhos mirabolantes na cabeça, despencamos da Praia da Costa para Jardim América, para encarar a “peneira” da Desportiva.

Chegando ao clube, ansiosos, fomos à procura do treinador no vestiário, no momento em que ele fazia a preleção para o começo do treino. Lá, outros garotos, como Ivo e eu, novatos inexperientes, misturavam-se aos boleiros, ouvindo as orientações do técnico.

Esperei que o homem terminasse de falar e dirigi-me a ele, resoluto: eu era o próximo Zé Sérgio em pessoa (para quem nunca ouviu falar, Zé Sérgio era um ponta esquerda – de novo, para quem nunca ouviu falar, ponta era um cara que jogava, com o perdão da redundância, pelas pontas – rápido, driblador, um craque!).

Toquei em seu ombro, pois ele estava de costas para mim, e comecei:

- Bicho, como é que eu faço para entrar no time...

Quando chamei o sujeito de bicho, despertei sua fera interior. O barbudo atarracado virou-se para mim furioso, como se eu tivesse acabado de xingar sua mãe, irmãs e tias, e vociferou:

- Bicho?! Que bicho, moleque?! Eu não sou nenhum bicho, eu sou é gente! E pode sumir da minha frente, porque no meu time quem fala gíria não joga!

Acho que foram essas as suas palavras, obviamente temperadas com alguns delicados palavrões. O Ivo, coitado, não abriu a boca, só olhava para o homem com os olhinhos orientais esbugalhados. Saímos dali enxotados, envergonhados, sob os olhares de espanto e deboche dos outros garotos. Saímos sem nem olhar para trás e voltamos para casa sem dizer palavra.

Deixa estar que a história tem lá sua ironia: eu, que desde pequeno sempre me preocupei em falar bem, me expressar corretamente, fui barrado em um time de futebol, não pela falta de talento, mas por um deslize idiomático. Isso foi acontecer logo, repito, em um time de futebol, onde fluência verbal e formação acadêmica não são exatamente os requisitos mais exigidos para se alcançar o sucesso.

Ao invés de ser examinado pelo domínio de bola, fui barrado por não dominar o vernáculo...

De qualquer maneira, foi assim que eu encerrei minha promissora carreira de jogador de futebol profissional.





Comentários

Paulo me avisa a data do lançamento !!! E onde vai ser !!!! Quero comprar um autografado !!! Abç.
(Delmar Corassa Duarte - 27/11/2009 13:40)

Fala Delmar! Assim que estiver tudo definido, os leitores do Ondaon serão os primeiros a saber. Tem certeza de que vai querer estragar o livro com o autógrafo, hehe?! Abraços, obrigado pela força!
(paulo marreco - 27/11/2009 13:56)

Bicho!!!! São mesmo bons seus escritos!!! Vamos ao livro!! E às ondas!!!
(Marcelo Dornellas - 28/11/2009 12:03)

Muito bom mesmo. Tenho certeza de que vai fazer sucesso. Como sou também sou companheiro de caneta, ou melhor, de teclado, vou te dar uma sugestão para o seu segundo livro: uma crônica-romance sobre a história de um surfista. Este livro poderia mostrar o que é realmente o verdadeiro espírito do surf. Quem sabe poderia se tornar uma luz no fim do tubo (com um rabeirão na saída) nesses mares crowdeados e com pouco respeito... Só não me proponho a escreve-lo por que o faço na área técnica (música e engenharia de áudio). E de qualquer maneira você faria muito melhor do que eu. Abraços.
(Ricardo Mendes - 28/11/2009 12:34)

caramba! irado Marreco! é só falar quando chegar nas livrarias que vou fazer a minha parte para você quitar o seu novo iate! rsrs. abraço!
(Eduardo Machado - 28/11/2009 18:42)

Paulo me avisa a data do lançamento !!! E onde vai ser !!!! Quero comprar um autografado !!! Abç. [2] rsrs mas parabêns, seu livro parece prometer boas histórias.. sempre lembrando q por mais q as histórias possam não ser tão boas.. saber contar faz a diferença..e vc sabe. abraço
(Jefferson Nascimento Braga - 28/11/2009 18:57)

Fala Marcelo! É isso aí: ao livro e às ondas. Se forem muito ao livro ficarei grato! Ricardo Mendes, sugestão anotada; já tenho algumas ideias na cachola. Mas primeiro, preciso vender esse, então, mão no bolso, surfistada! Eduardo, espero que ainda na primeira quinzena de dezembro o livro esteja em minhas mãos, para eu passar para as suas! Jefferson, espero fazer algo tipo uma tarde de autógrafos; quanto ao livro, tenho relatos de pessoas que deram boas risadas, sozinhas no sofá; então, acho que o livro é um bom divertimento. Assim que tivermos informações sobre o lançamento, os ávidos leitores do Ondaon serão os primeiros a saber. Abraços a todos, e obrigado pelo apoio!
(paulo marreco - 28/11/2009 19:50)

foi nessa que me dei mal de presente de natal , pois meu cunhado pegou emprestado no natal e até hoje o primeiro livro eu dançei rsrsrsrs cunhados ai ai agora se quiser vai comprar ñ empresto ......... se tiver um da 1 edição te compro pois vc é o carlos drumont da literatura surfence rsrsrsrs um abraço também estarei lá pois quero autografado assim como o delmar e o ulézinho na madrugada não te vejo mais por lá abraços até alguma vala no ulé rsrsrsrsrsrsrsrs
(stanley - 28/11/2009 22:36)

Fala Stanley! Da primeira edição só ficou um de lembrança; mas esta edição está mais bonita, melhor trabalhada, uma beleza! A surfistada não perde por esperar, hehe! Quanto às madrigas, estou esperando um marzinho mais honesto... Abraços!
(paulo marreco - 30/11/2009 09:49)

Grande marreco! Tardei a escrever novamente, mas continuo lendo! Pois bem, além de comprar este, gostaria de adquirir o primeiro da serie, como faço? Grande abraço e boas ondas!
(Diego Lyra _ kalifa - 01/12/2009 23:14)

"Talvez seus pais soubessem seu nome" hehehe, muito bom !!
(George P. Ramos - 02/12/2009 07:57)

Fala Diego! Estava mesmo sentindo falta de seus comentários. Quanto ao livro, a 1ª edição foi completamente esgotada, restando apenas um exemplar em minhas mãos. MAs você pode comprar dois da 2ª edição, hehe! Abraços! Fala George! Nunca saberemos quem era o Alemão...
(paulo marreco - 02/12/2009 11:52)